Pertenço a uma geração que
ainda está por vir, cuja alma não conhece já, realmente, a sinceridade e os
sentimentos sociais. Por isso não compreendo como é que uma criatura fica
desqualificada, nem como é que ela o sente. É oca de sentido, para mim, toda
essa (...) das conveniências sociais. Não sinto o que é honra, vergonha,
dignidade. São para mim, como para os do meu alto nível nervoso, palavras de
uma língua estrangeira, como um som anônimo apenas.
Ao dizerem que me desqualificaram, eu não percebo senão que se
fala de mim, mas o sentido da frase escapa-me. Assisto ao que me acontece, de
longe, desprendidamente, sorrindo ligeiramente das coisas que acontecem na
vida. Hoje, ainda ninguém sente isto; mas um dia virá quem o possa perceber.
Procurei sempre ser espectador da vida, sem me misturar nela.
Assim, a isto que se passa comigo, eu assisto como um estranho; salvo que tiro
dos pobres acontecimentos que me cercam a volúpia suave de (...).
Não tenho rancor nenhum a quem provocou isto. Eu não tenho
rancores nem ódios. Esses sentimentos pertencem àqueles que têm uma opinião, ou
uma profissão ou um objetivo na vida. Eu não tenho nada dessas coisas. Tenho na
vida o interesse de um decifrador de charadas.
Mas eu não tenho princípios. Hoje defendo uma coisa, amanhã outra.
Mas não creio no que defendo hoje, nem amanhã terei fé no que defenderei.
Brincar com as ideias e com os sentimentos pareceu-me sempre o destino
supremamente belo. Tento realizá-lo quanto posso.
Nunca me tinha sentido desqualificado. Como lhe agradecer ter-me
ministrado esse prazer! Ele é uma volúpia suave, como que longínqua.
Não nos entendem, bem sei...
...Assim como criador de anarquias me pareceu sempre o papel digno
de um intelectual (dado que a inteligência desintegra e a análise estiola).
Fernando Pessoa, Páginas Íntimas de Auto-Interpretação