quinta-feira, 18 de junho de 2020

O MAIOR AMOR E AS COISAS QUE SE AMAM


Tomara poder desempenhar-me, sem hesitações nem ansiedades, deste mandato subjetivo cuja execução por demorada ou imperfeita me tortura e dormir descansadamente, fosse onde fosse, plátano ou cedro que me cobrisse, levando na alma como uma parcela do mundo, entre uma saudade e uma aspiração, a consciência de um dever cumprido.

Mas dia a dia o que vejo em torno meu me aponta novos deveres, novas responsabilidades da minha inteligência para com o meu senso moral. Hora a hora a (...) que escreve as sátiras surge colérica em mim. Hora a hora a expressão me falha. Hora a hora a vontade fraqueja. Hora a hora sinto avançar sobre mim o tempo. Hora a hora me conheço, mãos inúteis e olhar amargurado, levando para a terra fria uma alma que não soube contar, um coração já apodrecido, morto já e na estagnação da aspiração indefinida, inutilizada.

Nem choro. Como chorar? Eu desejaria poder querer (desejar) trabalhar, febrilmente trabalhar para que esta pátria que vós não conheceis fosse grande como o sentimento que eu sinto quando n'ela penso. Nada faço. Nem a mim mesmo ouso dizer: amo a pátria, amo a humanidade.

Parece um cinismo supremo. Para comigo mesmo tenho um pudor em dizê-lo. Só aqui lh'o registo sobre papel, acanhadamente ainda assim, para que n'alguma parte fique escrito. Sim, fique aqui escrito que amo a pátria funda, (...) doloridamente. Seja dito assim sucinto, para que fique dito. Nada mais.

Não falemos mais. As coisas que se amam, os sentimentos que se afagam guardam-se com a chave d'aquilo a que chamamos «pudor» no cofre do coração. A eloquência profana-os. A arte, revelando-os, torna-os pequenos e vis. O próprio olhar não os deve revelar. Sabeis decerto que o maior amor não é aquele que a palavra suave puramente exprime. Nem é aquele que o olhar diz, nem aquele que a mão comunica tocando levemente n'outra mão.

É aquele que quando dois seres estão juntos, não se olhando nem tocando os envolve como uma nuvem, que lhes (...)

Esse amor não se deve dizer nem revelar. Não se pode falar dele.
Fernando Pessoa, Inéditos.

NÃO TENHO RANCORES NEM ÓDIOS


Pertenço a uma geração que ainda está por vir, cuja alma não conhece já, realmente, a sinceridade e os sentimentos sociais. Por isso não compreendo como é que uma criatura fica desqualificada, nem como é que ela o sente. É oca de sentido, para mim, toda essa (...) das conveniências sociais. Não sinto o que é honra, vergonha, dignidade. São para mim, como para os do meu alto nível nervoso, palavras de uma língua estrangeira, como um som anônimo apenas.

Ao dizerem que me desqualificaram, eu não percebo senão que se fala de mim, mas o sentido da frase escapa-me. Assisto ao que me acontece, de longe, desprendidamente, sorrindo ligeiramente das coisas que acontecem na vida. Hoje, ainda ninguém sente isto; mas um dia virá quem o possa perceber.

Procurei sempre ser espectador da vida, sem me misturar nela. Assim, a isto que se passa comigo, eu assisto como um estranho; salvo que tiro dos pobres acontecimentos que me cercam a volúpia suave de (...).

Não tenho rancor nenhum a quem provocou isto. Eu não tenho rancores nem ódios. Esses sentimentos pertencem àqueles que têm uma opinião, ou uma profissão ou um objetivo na vida. Eu não tenho nada dessas coisas. Tenho na vida o interesse de um decifrador de charadas.

Mas eu não tenho princípios. Hoje defendo uma coisa, amanhã outra. Mas não creio no que defendo hoje, nem amanhã terei fé no que defenderei. Brincar com as ideias e com os sentimentos pareceu-me sempre o destino supremamente belo. Tento realizá-lo quanto posso.

Nunca me tinha sentido desqualificado. Como lhe agradecer ter-me ministrado esse prazer! Ele é uma volúpia suave, como que longínqua.

Não nos entendem, bem sei...

...Assim como criador de anarquias me pareceu sempre o papel digno de um intelectual (dado que a inteligência desintegra e a análise estiola).

Fernando Pessoa, Páginas Íntimas de Auto-Interpretação 

LONGES, MAS NÃO TÃO DISTANTES


Todos os dias no início do alvorecer
Dormem milhares de estrelas deixando o sol nascer
Brilho inconstante faz o gelo dissolver
Estrelas brilhantes lembram olhos a nos ver
Que nos analisam procurando nos entender
Junto às estrelas brilha a Lua fazendo dores diversas se perderem
São esquecidos por seus brilhos esfuziantes não mais terem
Muitas vezes sinto a tristeza tomar conta do meu coração
Junto a ela vem sua irmã conhecida como depressão
Qual o motivo de ter partido sem dizer a verdadeira razão?
Fostes embora sem pensar e se importar com meu sofrer
Não quis saber se com todo sofrimento eu iria morrer
Nem se importou com o reflexo que a dor iria trazer
Foi egoísta quis saber apenas o que a vida iria lhe dar
Não se importou com os sentimentos daquele que quis muito o amar
Com sua partida tive vontade de fazer minha alma subir ao céu
Ser coberto pelas diversas estrelas como um interminável véu
Junto às estrelas e a Lua poderia sempre ver e estar junto com você
Acompanhar todos os seus passos, não deixar nada ruim lhe acontecer
Queria ser um anjo para em um instante por todo céu e universo voar
Poder brilhar mais que o Sol e a escuridão da galáxia ajudar a iluminar
O que adianta por muitas coisas para o ajudar querer desejar
Se você não consegue o sentimento mais forte, meu amor, valorizar
Quis apenas com meus sentimentos e minha vida brincar
Jurei que minha vida unida a sua seria um grande sinal de sorte
Mas a vida me enganou sua partida repentina fez eu clamar pela morte

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      A s poesias e as letras de músicas me acompanham desde o início da adolescência, quando os sonhos se ebuliam na minha mente. Eram os s...