Era uma vez, em uma ilha muito além dos confins do horizonte, mais longe que a vista podia alcançar um pequeno reino com várias características esquisitas e diferentes chamado Esdrúxulândia. Conhecido por muitos não somente pelas suas grandes belezas, riquezas, mas também pelo diferente e inúmero tipo de moradores com características, peculiaridades, diversidades, em relação ao estereótipo, à forma física, era definido como um local de grandes e inúmeros tipos de particularidades nas quais ninguém havia conseguido descrever sobre o verdadeiro surgimento, pois sua existência e origem eram únicas.
Muitos moradores se questionavam se
tudo aquilo poderia ter sido um castigo destinado a alguns deles, pois nem
todos apresentavam formas diferentes, grotescas, para pagarem por pecados
cometidos durante a vida, e que muitas das deformidades dos moradores atuais
fossem reflexos de algum tipo de maldade realizada por seus antepassados.
O reino era governado por um casal que
eram ambos muito arrogantes, mesquinhos e totalmente maléficos com todos os
moradores do império. Ambos tinham um sonho em comum: desejavam muito ter um
bebê.
Muitos diziam que a falta de filhos era
consequência das diversas maldades que ambos os governantes costumavam
praticar. Escravidão, exploração de trabalho, falta de pagamento eram algumas
coisas maléficas nas quais eles costumavam fazer com os moradores do local.
Mesmo tentando de todas as maneiras,
usando diversos métodos para terem seu sonho realizado, as diversas tentativas
foram em vão.
Dois bruxos, casados há milênios e
muito bondosos, vendo toda a maldade praticada no reino, decidiram se passarem
como moradores de Esdruxulândia.
O casal de bruxos para não serem
reconhecidos tiveram uma excelente ideia: se fantasiarem como mãe e filho. Ao
baterem na porta para pedirem por ajuda, criaram uma história para explicar o
motivo de estarem ali naquele exato momento e que ninguém desconfiasse.
A mãe da criança, com muitas lágrimas
nos olhos e voz soluçante, disse ao rei e rainha:
— Fomos abandonados de uma maneira sem
explicação pelo meu marido e pai da criança. Ele era um sujeito sem índole,
violento, cruel, desrespeitador. Eu e meu filho passamos por diversos tipos de
abusos, atrocidades, fomos diversas vezes violentados. Eu era restrita de sair
de casa com meu rebento, fazer denúncias, procurar meus direitos como mãe e
esposa.
―Não possuía condições financeiras
apropriadas para contratar um advogado para exigir separação, pois ele sonegou
todos os nossos bens conquistados durante nosso casamento sendo que grande
parte deles foi obtido devido ao meu trabalho. Ele não era adepto das tarefas
diárias e costumava realizar vários tipos de ameaças envolvendo eu e meu filho
alegando que caso fizesse algum tipo de denúncia envolvendo o nome dele na
justiça, seríamos vítimas de mutilação.
—Não aguentava mais ser vítima de
tamanha violência. Todas as marcas horríveis no meu corpo e do meu filho são frutos
do que aquele homem, com toda sua crueldade fez conosco utilizando todo tipo de
agressão, brutalidade. Houve momentos no qual pedíamos a Deus para não nos
deixar mais passar por toda aquela aflição brutal e psicológica e nos levar
para morarmos juntos Dele e acabar com todo nosso sofrimento.
—Peço apenas que tenha um pouco de
compaixão minha e de meu pequeno e amado filho e supra nossa fome apenas com um
pouco de seu farto alimento e permita que permaneçamos num local do castelo
para que possamos nos esquentar e acabar com nosso frio acarretado por esta
incessante chuva. Apenas um dia de moradia no castelo, uma noite de sono para
podermos descansar será o suficiente para que não nos tornemos vítimas de algum
tipo de doença.
Vendo sua grotesca, horrenda aparência,
ambos os governantes trataram os dois visitantes da pior maneira possível.
Pediram aos guardas reais para enxotá-los. Decidiram fazer com que e batessem
naquela família de mãe e filho compulsivamente sem nenhum tipo de dó. Os reis
diziam que o castelo era local para ser frequentado pela estirpe, por pessoas
de alto calão, que possuíssem “sangue azul” nas veias. E concluíram dizendo:
— Só não mandamos tirar a sua velha
vida e de seu filho por não fazermos e nem permitirmos que nossos guardas reais
pratiquem este tipo de atrocidade. A morte é algo nesta vida na qual não somos
adeptos.
Vendo que ambos os governantes tinham
grande maldade na alma e no coração, voltaram a forma real de marido e mulher e
jogaram uma maldição no casal real. Os bruxos disseram:
—Por apresentarem tamanha maldade e
nenhum tipo de bondade dentro de si, passarão deste dia até melhorarem ambos os
comportamentos por uma maldição como prova. Serão privados de não terem filhos.
Esta praga será apenas finalizada no dia que o reino for tomado novamente de
grande alegria, os moradores serem tratados de uma maneira mais benevolente,
apropriada, não serem vítimas de trabalhos escravistas, violentos, jamais
houver algum tipo maldade no coração e alma do casal real. Após jogar a maldição,
o casal de bruxos desapareceu tão rápido como surgiram.
O casal real, devido a maldição,
passaram a sofrer muito por não poderem ter mais filhos e por isso eram tomados
por diversos tipos de problemas pessoais como, por exemplo, grande e diária
tristeza seguida por uma profunda depressão.
O reino era habitado por animais,
pessoas e plantas que falavam, raciocinavam, utilizavam vários tipos de termos,
idiomas, linguagens para se comunicarem, trocarem conhecimentos, experiências,
histórias de vida e até mesmo expressarem seus mais profundos sentimentos não
somente entre os diferenciados moradores mas também os inúmeros tipos de
visitantes que costumavam aquele império visitar.
Mesmo sendo considerados, definidos por
muitos como aberrações por terem sido frutos, resultados de experiências mal
sucedidas por apresentarem corpo de um ser vivo e cabeça de outro, alguns dos
habitantes do reino se auto definiam como seres-vivos felizes e não se
importavam com as opiniões alheias. O que mais importava eram os diferentes
tipos de sentimentos que muitos tinham um pelo outro.
Muitos que conheciam o reino apenas
através das definições e descrições alheias, costumavam utilizar diferentes
tipos de termos, adjetivos pejorativos, como por exemplo, a palavra
estrambótica para definir as diferentes coisas horrendas no qual o reino
possuía.
Neste reino vivia um gato que, além de
possuir uma aparência muito distinta a dos outros felinos, possuía um nome
muito incomum. Assim que nasceu e sua família se deparou com todas as suas deformidades,
defeitos e nenhuma beleza, decidiram dar o nome daquela horrenda criatura de
“Gabiru”.
Após o nascimento, Gabiru foi
desprezado, discriminado, humilhado por apresentar diferenças incomuns entre os
seis irmãos felinos e não possuir nenhum tipo de beleza. Sua mãe e família o
definiram como sendo uma experiência mal sucedida da natureza e para suprir
todo aquele descontentamento decidiram colocar o próprio filho para adoção.
Mas por todas suas inúmeras
deformidades, ele sofreu vários tipos de discriminações, rejeições pelos
diversos tipos de pais adotivos e, desta maneira, não foi aceito por eles para
ser adotado.
Muitos chegavam a questionar o local de
adoção se a criança era vítima de algum tipo de problema de saúde contagiosa,
algo que o levasse a falecer futuramente, quanto tempo de vida ele ainda
possuía e quais os motivos que deixaram aqueles vários tipos de sequelas no
corpo do gato. Eram coisas nas quais nenhum tipo de especialista tinha
conseguido explicar até aquele momento.
Durante as primeiras visitas, ao verem
que o pequeno e grotesco felino Gabiru não apresentava nenhuma beleza
fisionômica, muitos se assustavam com toda sua aparência grotesca e devido a
isso era rejeitado logo no princípio, não tendo direito a uma segunda visita
devido à falta de interesse dos adotantes.
Muitos locais ao se depararem com a
horrenda fisionomia de Gabiru inventavam diversos tipos de desculpas como crise
econômica relacionada à falta de dinheiro para manter o funcionamento do lugar
falta, de alimento apropriado e necessário para manter todos que estavam ali.
Alegavam também que o ambiente possuía
crianças e adolescentes em demasia para adoção e que não comportava mais uma
pessoa para ser adotada. Diziam que a fila de espera para adoção crescia
cotidianamente e que as crianças que muitos exigiam para adotarem deveriam ter
idades inferiores e não compatíveis com a de Gabiru que no momento ainda era
recém-nascido mas apresentava uma fisionomia de alguém mais velho.
Após muitas desculpas e faltas de
interesses das pessoas e dos locais de adoção de crianças e adolescentes, a
família desistiu colocar Gabiru para adoção e o criaram até o início de sua
pré-adolescência quando desistiram de conviverem com o bichano e o jogaram,
abandonaram ao relento, vítima da violência, atrocidade diária dos grandes
locais e também das diversas, inúmeras incompreensões humanas.
Decidiram, desta maneira, colocar o
infeliz bichano ao frio e triste relento fazendo com que Deus se incumbisse da
sobrevivência diária do mal-amado e maltratado felino.
Apesar de ser um gato, todos deram o
nome ao bichano de Gabiru, nome utilizado no dicionário para definir um
peculiar tipo de rato grande no qual possui quase o tamanho de um felino.
Esta qualificação do nome também foi
escolhida por todos para definir detalhadamente seu estereótipo, aspecto
fisionômico, sua aparência totalmente deformada no qual além de ser diferente
era totalmente grotesca. O nome do felino apresentavam outras características.
Tem como verdadeiro significado, alguém esperto, astuto, matreiro, malandro,
conquistador, mulherengo, características nas quais ele não apresentava.
Ele era o mais novo de uma família de
sete irmãos sendo eles todos homens. Assim que nasceu, passou a ser desprezado,
humilhado, discriminado não somente por toda sua família, mãe, pai, irmãos e
antigos donos, mas por todos aqueles que o cercavam e viviam naquele reino pois
era o único entre seus irmãos que apresentava uma aparência considerada por
todos como grotesca, medonha, assustadora.
Após seu nascimento, ao se depararem
pela primeira vez com aquele animal tão diferente dos demais, tendo aquela
aparência considerada por muitos como assustadora, grotesca, que lembrava a de
um verdadeiro monstro, seus antigos donos e familiares decidiram jogá-lo,
abandoná-lo pelas ruas do reino sem nenhum sentimento de pena, como algo
inutilizável, como um saco de entulhos sem valor.
Ambas as famílias, tanto a verdadeira
quanto a adotiva, ao verem aquela imagem tão aterradora, tenebrosa, tétrica,
medonha, muitas vezes pensaram em cometer diversos tipos de atrocidades com o
pequeno recém – nascido gato Gabiru.
Durante sua vida, ele, então, passou a
morar cada dia em um canto do reino, enfrentar todos os momentos um tipo de
problema e inúmeras necessidades. Mas mesmo assim sempre se mostrou forte
diante às inúmeras, incontáveis dificuldades. Sua força, persistência e
otimismo foram algumas das fontes que o levaram a nunca desanimar e deixar de
lutar pela vida. Sua grande fé também foi um forte motivo, um grande escudo que
o protegeu contra todo tipo de sentimento negativo não permitindo que nada ou
ninguém o abatesse.
O tempo foi passando e os traços
físicos do gato foram se transformando, deixando o felino cada vez mais
assustador. Ele sofria cada vez mais para conseguir alimentos que pudessem
ainda ser aproveitados e que conseguissem acabar com sua fome.
Gabiru, andando solitário e faminto
pelos becos, chegou a se questionar inúmeras vezes sobre como conseguiu
sobreviver, abandonado e esquecido e também como chegou a passar numerosos dias
sentindo tão grande falta de alimentos que o ajudassem superar seu imensurável
apetite. Por que as pessoas possuem um coração tão rígido, sólido como uma
rocha, são assim tão maldosos a chegarem a tal ponto de julgar alguém sem antes
conhecer pessoalmente? Será que muitos desconhecem, ignoram o fato que durante
inúmeras vezes a verdadeira imagem está invisível aos nossos olhos, ou seja,
apenas conhecemos realmente a pessoa através da convivência diária? Em outras
palavras, será que vemos apenas o que realmente nossos olhos desejam ver? Que o
real apenas é visto com o coração, pois é nele que persistem em manter moradia
os incontáveis sentimentos? O restante está obscuro, escondido para uma análise
mais detalhada e profunda, se perguntou de uma maneira mais filosófica e
detalhista o Gato Gabiru.
Outros tipos de dificuldades
enfrentadas por Gabiru durante sua vida sofrida caminhando pelos becos dos
inúmeros reinos que ele destinava a caminhar eram o frio diário, aumento da
violência e drogas, solidão e lidava com uma grande crise de depressão devido a
todos os problemas que enfrentava, pois tentou em diversas vezes tirar sua
própria vida, acabar definitivamente com o seu sentido de viver.
Teve várias vezes vontade de ter um
amigo verdadeiro, alguém que pudesse conversar e confiar seus mais profundos
segredos, compartilhar todas as suas histórias. Mas sempre foi esnobado, sofria
vários tipos de preconceitos por ser diferente dos demais, possuir uma
aparência considerada por todos, tão grotesca, horrenda e que muitos
denominavam mórbida devido ao fato dele passar fome em demasia e suas
características físicas serem semelhantes a de uma caveira, um esqueleto.
Também foi vítima de muita violência
nas ruas frias, violentas e escuras, iluminadas raramente pelas estrelas e a
lua, por onde transitava sempre sozinho. Ao se depararem com Gabiru, com um
aspecto todo deformado, muitas pessoas que o viam perambulando sem rumo
acreditavam que alguns dos problemas em seu aspecto físico eram devido aos
inúmeros tipos de selvagerias, brutalidades que ele sofreu.
As pessoas acompanhavam de perto toda a
selvageria no qual o gato foi submetido, como algum tipo de espetáculo de
horror, sem fazer nada para impedir toda aquela atrocidade, pois todo aquele
tipo diferenciado de brutalidade costumava chamar muito a atenção pelos
diversos tipos de atos medonhos, maldosos, o uso excessivo, em grande escala de
força física que realizavam com o pobre e infeliz bichano.
Muitos riam e até aplaudiam achando que
tudo aquilo, todo aquele sofrimento fazia parte de algum tipo de apresentação
pública gratuita. Seu miado lembrava um grito clamando ajuda, ecoando ao vento
por todos os cantos da cidade, exprimindo toda a dor sentida por ele durante
aquela agressão sem sentido no qual ele sempre foi vítima.
Enfrentou também a grande falta de
solidariedade das pessoas em relação ao que é considerado diferente, pois elas
não possuíam nenhum tipo de sentimento puro e verdadeiro para ajudá-lo naqueles
momentos tão difíceis. Pensavam apenas em si e nunca nos interesses, benefícios
e necessidades de seus semelhantes. Eram totalmente egoístas e egocêntricos.
Ele definia a alma de tais pessoas como uma aparência mais grotesca que sua
própria fisionomia.
Devido a seu aspecto mais que diferente
do que costumava ser convencional no reino onde morava, Gabiru, então, passou a
sofrer muito com os diversos tipos de preconceitos. Ele via que o que realmente
as pessoas admiravam, idolatravam era a parte estética, física, da beleza e não
o sentimental e o nosso lado interior. Ele definia cada ser - humano ao seu
redor como um produto exposto numa vitrine e que esteja à venda onde o que mais
costuma fazer sucesso é aquele que apresenta melhor embalagem e preço.
Muitas pessoas o julgavam como um ser
de outro mundo. Outros achavam que foi uma experiência mal sucedida. Ele era um
gato que possuía características muito destacadas e distintas dos demais da sua
espécie. Seu pelo possuía inúmeras imperfeições. Diziam que ele já estava
ficando calvo e muitos achavam que ele possuía algum tipo de doença contagiosa
por apresentar aquela aparência.
Mas não era somente esta característica
que chamava a atenção dos moradores de todo o reino. Ele era totalmente
curvado, corcunda. Muitos diziam que suas costas lembravam as corcovas de um
camelo ou até mesmo de um dromedário. Outros diziam que suas costas lembravam
um escorregador de um parque infantil pelo fato dela possuir um formato tão
côncavo.
Os olhos possuíam colorações desiguais,
um verde e outro que lembrava a cor de uma flor, ou seja totalmente violeta,
puxado um pouco para a tonalidade do púrpuro. Além disso, era totalmente
caolho, estrábico, enxergava tudo de uma maneira totalmente torta, distorcida.
Muitos faziam comentários maldosos
relacionados à sua maneira de olhar, distinguir as coisas ao seu redor. Diziam
que ele tinha um olho no peixe e outro no rato. Que seus olhos e seus óculos
lembravam, em uso conjunto, uma estrada durante a noite com vários caminhões e
ônibus trafegando incessantemente. Usava óculos que cobria quase toda sua face.
As lentes eram tão amplas, medonhas, grotescas, descomunais que chegavam até a
lembrar do tamanho de um binóculo.
Mas para melhorar sua maneira de
enxergar coisas e pessoas que ele nunca teve oportunidade um dia ver, ele decidiu
optar pelo uso diário de óculos. Recorreu a isso por grande necessidade e não
por simples brincadeira, ou seja, decidiu colocar para melhorar a visão dos
objetos ou pessoas que estavam próximas ou a uma grande distância.
Muitos faziam diversos tipos de
brincadeiras mal-intencionadas com o problema das muitas dificuldades dele para
enxergar, de ver tudo de uma maneira toda distorcida, alterada.
As pessoas costumavam inventar diversos
tipos de histórias maliciosas, sem nenhum tipo de dó ou até mesmo piedade e
compaixão, piadas sem nenhum tom de graça para se referirem ao problema de
visão que o bichano enfrentava.
Diziam que, o fato dele possuir este
tipo de complicação, de seus olhos serem diferentes, sua visão ser totalmente
distorcida, fazia com que ele também tivesse um olho no peixe e o outro no
rato. Isso muitas vezes o deixava cabisbaixo, triste, depressivo.
Gabiru ainda tinha outros problemas
físicos em seu corpo como os de suas duas orelhas e o do seu rabo. Eram danos
estéticos visíveis duradouros e que também causavam constrangimento, vergonha,
sofrimento a ele. Em outras palavras, possuíam tamanhos distintos sendo que uma
delas quase não aparecia em sua cabeça por ser tão pequena. A outra possuía um
grande formato no qual lembrava longas mechas de cabelos. Em outras palavras,
eram diferentes do convencional, fora da proporção correta e do comum. O fato
de possuir ouvidos com deformidades, ou seja, uma delas era maior que a outra
ele, fazia com que o gato enfrentasse muitos tipos de problemas para ouvir os
diversos tipos de sons ao seu redor.
Muitos ainda diziam que o formato do
seu corpo era de uma bola de praia enfeitada. Este comentário se dava ao fato
do seu peso estar acima do normal. Mas a consequência dele estar gordo não era
pelo fato dele comer muito após passar alguns dias enfrentando a fome, quando
encontrava alimento, comia sem parar .
Outra coisa que falavam do corpo de
Gabiru era o fato dele ter nascido com um nariz que mais lembrava uma cenoura
não pela cor e sim pelo comprimento: muito grande e comprido. Todos sabiam que
gatos nasciam com narizes pequenos, delicados, normais. Mas os diversos tipos
de comentários começaram no momento que todos viram e se depararam pela
primeira vez, com aquela aberração, como costumavam defini-lo e chamá-lo,
perambulando pelas ruas do reino.
Seu nariz era muito avantajado, fora do
comum. Outra coisa que os moradores do reino acreditavam era o fato de que caso
o pequeno e esquisito bichano mentisse, seu nariz iria mudar no formato, ou
seja, tanto em tamanho como em largura.
Além disso, ele ainda nasceu com uma
terrível dificuldade para se movimentar e costumava mancar constantemente, ou
seja, era um ato que se repetia regularmente e com grande frequência. Entre
todas as suas quatro patas, ele mancava apenas com duas delas, sendo que os
dois defeitos encontrados em suas pernas faziam parte de lados diferentes do
seu corpo: uma era na parte direita da frente e a outra no lado esquerdo de
trás.
Para evitar a colisão diária do seu corpo
com o chão, os moradores decidiram, então, amarrar pedaços cortados de madeiras
como principal fonte de apoio, sustentação, com a finalidade de substituir as
partes das pernas que, desde seu nascimento, faltavam em seu corpo. Desde esse
dia, que parte de suas patas foi substituída por pedaços de madeira com intuito
de ajudá-lo durante sua caminhada pelos diversos lugares, ele começou a andar
melhor. Mas continuou ainda sendo motivo de risos, chacotas de todos os
moradores do reino.
Mas, apesar de todas as suas
características físicas que as pessoas avaliavam e julgavam serem, além de
diferentes, também fora do normal, os moradores ainda consideravam sua
aparência como medonha. Muitos descreviam e comparavam sua aparência a de
personagens grotescos de filmes de terror.
Apesar de todas as críticas e
observações maldosas realizadas pelas pessoas, Gabiru se definia um gato
romântico, carinhoso, com alma pura, apaixonado pela vida. Costumava visitar
diariamente a pequena paróquia que o reino possuía. Em todas as suas preces cotidianas
sempre pedia a Deus que encontrasse uma família que o adotasse, o amasse,
aceitasse da maneira como foi colocado por Ele no mundo, pois sabia e
acreditava que ele possuía aquela aparência horrível, medonha, assustadora, não
era por acaso.
Após pedir encarecidamente por uma
família que o amasse, entendesse, estivesse ao seu lado em todos os momentos,
suas preces foram atendidas. Ele passou, então, a morar em uma casa muito
pequena e simples, junto com uma família muito humilde. Gabiru era funcionário
adepto, assíduo do castelo real de Esdruxulândia. Foi contratado após passar
por uma intensa entrevista de emprego, concorrendo a uma vaga com muitas
pessoas.
O casal real tratava o felino como
verdadeiro filho, mesmo vendo que ele possuía uma aparência deformada, eles o
amavam por sua bondade, caridade e também por nunca terem os abandonado mesmo
nos momentos mais difíceis que ainda passavam de tristeza e depressão por não
poderem ter filhos. Tudo isso era reflexo da maldição lançada pelo casal de bruxos
no rei e rainha pelas maldades que costumavam praticar. Chegaram a pedir
diversas vezes que ele fosse desfrutar das regalias que o reinado possuía e que
se tornasse filho de ambos.
Mas o gato se desculpou diante ao rei e
rainha e alegou preferir a vida calma e simples que possuía com seus pais
adotivos que sempre o amaram, batalharam pela sua sobrevivência, nunca deixaram
nada ao bichano faltar e, segundo ele, este amor era a maior das riquezas que
qualquer um pudesse lhe dar.
Mas após uma longa conversa e terem
mudado o comportamento diante seus súditos, a rainha começou a notar uma
mudança em seu corpo e percebeu que a maldição lançada no casal pelos bruxos já
não existia mais. Após alguns meses foram presenteados com o nascimento de um
filho, pois foi constatado que os imperadores começaram a tratar todos os
moradores do reino de maneira mais apropriada, adequada, sem exploração, melhor
fazendo com que houvesse uma mudança positiva em todo o reinado.
O felino ficou feliz com a notícia do
nascimento da criança e que o casal real já não era mais vítima da maldição dos
bruxos. O gato dizia que apesar de todos os males, o rei e a rainha faziam
parte do seu circulo de amizades e que nunca o julgaram pela sua grotesca
aparência e deram oportunidades empregatícias quando ele mais necessitou,
escutavam calmamente as palavras contendo diferentes tipos de conselhos
inteligentes, analíticos, sinceros, perspicazes, construtivos.
Mas o grande sonho de Gabiru era
possuir um amigo verdadeiro, coisa na qual naquele lugar era totalmente
impossível. Ele dizia que seu único e verdadeiro amigo no qual pode confiar em
todos os momentos, sem cessar ou correr o risco de abandoná-lo, sempre foi
Deus. Ele considerava aquela amizade algo verdadeiro, pois sempre pode
conversar e confiar todos os seus segredos sem ter o risco de contar a ninguém.
E o retorno ás suas perguntas podiam demorar algum tempo, mas sempre apareciam
com uma resposta muito inteligente e que pudessem ajudar em todos os momentos
da minha vida.
Nesta mesma casa, morava também um
pequeno rato conhecido por todos pelo nome de “Florisbelo” no qual também era
conhecido pelos amigos mais íntimos e próximos pelo carinhoso apelido de
“Belo”. Era um ratinho esnobe além de se julgar o mais perfeito das espécies.
Adorava cuidar do corpo, era narcisista, além de amar passar muito tempo diante
do espelho sempre fazendo a mesma pergunta e esperando uma resposta que nunca
chegava aos seus ouvidos:
— Espelho, espelho meu, será que neste
mundo há um rato mais belo, gostoso e perfeito do que eu?
Certa vez, ao encontrar por acaso o
gato na rua, o rato começou a rir de uma maneira desenfreada, daquela aparência
tão diferente e considerada por muitos como grotesca do felino, não respeitando
em nenhum momento sobre o que tudo aquilo poderia causar a quem estivesse
ouvindo e sendo vítima de todo aquele preconceito.
O gato ouvia tudo aquilo calado e
chorava baixo, sem ninguém ver ou perceber suas lágrimas rolarem aos poucos
pela sua face.
De repente, de uma maneira totalmente
indisciplinada, grosseira, sem respeitar os defeitos físicos alheios, o rato
Florisbelo começou utilizar palavras de baixo índice e calão, vulgaridade para
se referirem e humilharem o pobre gato Gabiru:
— Gato, que horrendo tu és. Tens a
aparência do mais horrível dos monstros. Tu assustas todos aqueles que passam
ou caminham ao seu redor. Muitos o julgam, abominam e o repudiam sem mesmo
antes de conhecê-lo ou até mesmo sem mesmo conversar contigo.
Mesmo vendo que o gato se entristecia
com cada palavra de mau trato dita, o rato não parou e continuou pois se sentia
bem vendo o sofrimento do felino e decidiu dar continuidade dizendo:
—Olhe para minha aparência e verás que
minhas qualidades são vistas e admiradas por todos. Sou tão perfeito como um
deus grego, um anjo. Pareço ter sido esculpido por Deus e os anjos nos mínimos
detalhes, com os melhores e mais preciosos tipos de materiais. Minha maior
prioridade é cuidar da minha parte estética, do meu corpo, para que não fique
doente. Já sua aparência sempre foi motivo de risos entre todos os moradores e
também até entre aqueles que dizem serem “os seus melhores amigos”.
Ao escutar todos aqueles desaforos, o
gato decidiu dar as costas ao pequeno roedor sem nada falar. Ele ficava cada
vez mais triste a cada momento que ouvia aquelas palavras ditas pelo rato ao
mesmo tempo tão horríveis e que feriam de uma maneira tão profunda. Mas apesar
de tudo sempre se mostrou forte e nunca guardou rancor daquela pequena
criatura. Saiu sem derramar uma lágrima com todos os desaforos ouvidos.
O gato, mesmo com toda sua feiura,
apresentava um lar para morar e também uma família que realmente o amava da
maneira como ele realmente era, não se importavam com sua aparência grotesca,
bizarra. Isso fazia com que Gabiru tirasse forças dentro de si, dos lugares
mais incríveis, inimagináveis, nunca sonhados jamais, para sobreviver, pois se
não fosse o amor e todos os sentimentos de, não somente sua família adotiva,
mas também todos que o amavam, compreendiam e o aceitavam pela maneira como ele
realmente era os braços frios da Morte já tinham vindo abraçar aquele corpo tão
grotesco e deformado.
Certa vez, deitado em sua simples, mas
aconchegante cama construída a base de palha, Gabiru ouviu uma fina voz, na
qual parecia soar um pouco conhecida, gritar desesperadamente por socorro.
Tomado por uma imensa curiosidade, decidiu levantar e ver o que estava
realmente acontecendo naquele horário e do lado de fora da casa e quais os
motivos que levaram alguém gritar de uma maneira tão frenética, repetida,
implorando por ajuda.
O pequeno roedor, conhecido pelo nome
de Florisbelo, que se considerava o mais belo e perfeito entre todos os
camundongos, se encontrava nesse momento cercado de gatos completamente
famintos. O rato gritava, implorava, suplicava desesperadamente para que Gabiru
o ajudasse a sair daquela armadilha preparada, minuciosamente, por todos
aqueles gatos vorazes, que tinham a intenção de conseguir algo que ajudasse pôr
um fim a toda àquela fome felina que os angustiavam. Seus estômagos emitiam
sons grotescos, assustadores de fome que podiam ser ouvidos mesmo por aqueles
que estivessem mais longe. Mesmo olhando mais nitidamente, profundamente seus
olhos, conseguia se perceber mais ou menos quanto tempo pareciam estar sem se
alimentarem.
Ao ouvir Florisbelo gritar por ajuda,
Gabiru então respondeu:
— Rato Florisbelo, lembra-se de todas
as humilhações que tu fizestes várias vezes em minha vida eu passar? Das
várias, diversas coisas horrendas que tu falaste para me humilhar? Nunca,
jamais deu algum tipo de importância a meus sentimentos ou como poderia me
sentir com palavras tão horrendas, grotescas e quais tipos de proporções que
elas causariam.
Vendo que Gabiru se sentia triste com
as todas aquelas palavras com grau de humilhação, Florisbelo disse:
—Gabiru sinto que você ainda não
conseguiu decifrar e entender o verdadeiro significado, sentido e a força das
minhas palavras. Disse tudo àquilo para esconder meus mais profundos e
verdadeiros sentimentos por ti. Você pode ter uma aparência horrenda, grotesca,
ser humilhado por grande parte dos que estão ao seu redor, de não o aceitarem
na sociedade pela sua aparência, e devido a este fato muitos o abominarem,
discriminarem, fazendo muitas vezes, vermos quais os principais e verdadeiros
problemas sociológicos que ainda assolam nossa sociedade. Mas o que eu
realmente amo não é apenas sua imagem na qual muitos veem constantemente, mas
sim o que diversas pessoas não conseguem ver como seus sentimentos, sua pureza
e a grandeza de seu coração.
Vendo que Gabiru se emocionava, mas
desta vez de alegria, com todas as palavras que estavam sendo ditas naquele
momento, o roedor ainda continuou expondo todo seu sentimento em relação a
Gabiru:
— Gato, meu amor por você parece ser
infinito, não ter limite, conseguir vencer todas as barreiras. Tu és mais belo
que todos da sua raça. Quem tenta de todas as maneiras humilhar-lhe não
consegue ver e entender que a verdadeira beleza é invisível aos olhos de quem
realmente não quer ver.
Gabiru, comovido com todas tocantes,
sentimentais palavras de amor de Florisbelo, decidiu, então, ajudá-lo e
conseguiu, assim, livrá-lo de toda aquela armadilha criada por todos aqueles
inúmeros gatos. Então, o camundongo em sinal de agradecimento ao gato pelo
salvamento oferecido naquele momento disse:
— Felino, meu amor. Vejo que tu
defendeste minha vida de por outros da sua mesma espécie ser consumido. Tu me
salvaste também não somente pelas lindas palavras de amor que a ti dissestes,
mas também pelo grande afeto, paixão, ternura, amor entre outros inúmeros
sentimentos que tu tens, guardas por mim e não consegue demonstrar por ainda
sentires vergonha e me desprezares pela minha horrenda aparência. Esqueça os
comentários alheios em relação ao meu aspecto e me ame de uma maneira mais
adequada, apropriada, com sua alma, seus sentimentos. O verdadeiro amor é como
o universo. Em outras palavras, não tem fim, vai mais além do que os olhos
alcançam.
Então o gato ao roedor respondeu:
— Meu amor! Quero que tu saibas que
sempre o amei, desde nosso primeiro encontro, o dia, lugar e momento em que
nossos olhares se cruzaram pela primeira vez. Mas por você ser tão belo, ter
uma aparência tão irradiante, ser muitas vezes esnobe e eu aparentar uma imagem
tão grotesca, horrenda, nunca tive coragem suficiente, necessária para expor
todos os meus sentimentos e seus significados por ti, que ficaram guardados
sempre a sete chaves, sem a ninguém expor, pois meu maior medo, também, era ser
rejeitado, esnobado por você. Hoje realmente posso dizer a muitas pessoas o
quanto eu realmente o amo e qual a força, profundidade e grandeza de todo este
amor.
Deste dia em diante, quando passaram a
se conhecerem de uma maneira mais próxima, íntima e melhor, o gato Gabiru e o
rato Florisbelo iniciaram uma linda história de amor sem se importarem com as
inúmeras coisas que muitos faziam, criavam, diziam para fazer com que o grande,
forte, incessante, infinito amor, aquela linda história de uma tórrida paixão
tivesse um fim como de algumas novelas, bastante trágico.
O verdadeiro amor não tem fronteiras.
Quando ele chega, derruba inúmeras barreiras e conquista até aqueles com o
coração mais duro e cruel. Conseguem até ver a verdadeira beleza onde os olhos
muitas vezes não percebem.
E para finalizar toda a conversa,
Gabiru disse a Florisbelo:
— Florisbelo, meu amor! Sou muito feliz
por poder te amar e sentir que tu correspondes a todo esse meu sentimento. Por
Deus ter colocado alguém tão especial como você em minha vida tão sofrida e que
me ama, respeita pelo que sou, pelos meus sentimentos, defeitos e qualidades.
Espero esse profundo afeto nunca acabar, pois se isso um dia acontecer acho que
não irei conseguir neste mundo mais sobreviver.
Então Florisbelo a todas aquelas palavras
dramáticas de amor de Gabiru respondeu:
— Meu amor, tenho muitas coisas para
falar a você. Primeiramente, quero que escute algumas coisas que tenho do fundo
do meu coração e da minha alma, a dizer:
— Meu profundo sentimento por você
nunca vai acabar. Sou capaz de todo este mundo por você e seu amor enfrentar e
nada nesta vida me fará parar de te amar. Mesmo após nossa morte, eu sei que em
algum lugar nós iremos um dia nos encontrarmos, pois Deus sabe que nosso amor
nunca irá cessar. Pois sei que todo sentimento verdadeiro nem o tempo consegue
apagar e muito menos os invejosos, maléficos, pobres de alma e sentimentos
conseguem fazer ou criar algo para nosso lindo amor terminar.

